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ARTIGO
Prioridade ao país

Olavo Machado Jr*

Dizia-se, no fim dos anos 1940 e começo dos anos 1950, que Minas Gerais não tinha indústrias porque não dispunha da energia elétrica necessária para tocá-las - e não tinha energia porque não havia indústrias para consumi-la. Duas décadas mais tarde, virada dos anos 1960 para 1970, quando o milagre brasileiro ia de vento em popa, afirmava-se que o estado jamais poderia sonhar com um polo da indústria automobilística pela simples razão de que São Paulo já avançara demais e toda a logística necessária, inclusive o parque produtos de autopeças, se localizava na região. A capacidade empreendedora das lideranças políticas e empresariais mineiras se encarregou de desmentir tais premissas, que muitos viam como verdadeiros dogmas.
 
No primeiro caso, o então governador Juscelino Kubitschek criou o binômio energia e transportes - dele nasceu a Cemig e, dela, um moderno e inovador parque industrial eletroeletrônico, que ainda hoje se destaca entre os melhores do país, embora venha perdendo força nos últimos anos. No segundo, reagindo às previsões que viam para Minas Gerais perspectivas ainda piores do que a realidade de uma economia estigmatizada por um perfil concentrado na indústria extrativa, atraiu-se para Minas Gerais a Fiat Automóveis, que, por sua vez, fruto de um competente projeto de mineirização de sua produção, fez germinar um poderoso e eficiente polo produtor de autopeças. Cemig e Fiat funcionaram como devem funcionar empresas-âncora de uma economia: priorizar os fornecedores locais e, por meio deles, apoiar um processo de desenvolvimento sustentado gerador de renda e de emprego. Contaram, naturalmente, com o apoio dos governos federal e estadual que investiram em um projeto de desenvolvimento de longo prazo.
 
Hoje, ao encerrar-se esta primeira década do século 21, defrontamo-nos, mais uma vez, com problemas antigos, velhos fantasmas que se julgava exorcizados. O que se observa no país é uma constante perda de oportunidades comerciais por conta da excessiva valorização cambial, de políticas agressivas de comércio exterior em outros países e de sistemas tributário e trabalhista que sobrecarregam os custos internos de produção. Com isso, a indústria brasileira está ameaçada de ser posta à margem de oportunidades que podem contribuir efetivamente para impulsioná-la, sustentar um importante processo de inovação tecnológica e contribuir para que concretizem as previsões de crescimento da economia brasileira.
 
Se nada for feito agora, no longo prazo, corre-se o risco de se entregar o mercado brasileiro a fornecedores internacionais, ou seja, vamos gerar emprego e renda na Ásia e em muitas outras regiões mundo afora - e menos no Brasil, com todos os impactos sociais que isso significa. Nesse sentido, além das mudanças sistêmicas necessárias para assegurar igualdade de condições de competitividade para a empresa nacional competir frente às empresas internacionais, impõe-se a adoção de políticas que induzam uma maior integração entre as cadeias produtivas da indústria, nas quais o governo pode e deve atuar no sentido de valorizar o insumo e bens de capital nacional.
 
É, portanto, o momento para rever a missão dos governos e das empresas-âncora, a exemplo do que ocorre até mesmo nas economias mais desenvolvidas, como a norte-americana, onde uma extensa legislação protege o mercado interno para empresas nacionais, via programas de compras governamentais utilizados como instrumentos de desenvolvimento econômico e de indução e incorporação de tecnologia. Uma dessas leis é o Buy American Act, editado em 1933, quando o país vivia o auge da depressão que se seguiu à quebra da Bolsa de Nova York. Os índices de preferência às empresas norte-americanas podem chegar a 50% em casos como de compras do Departamento de Estado.
 
O Brasil também tem suas grandes âncoras, empresas de porte global e deve utilizá-las bem. Empresas se tornam grandes e se tornam âncoras quando contam, em sua retaguarda, com um competente exército de micro, pequenas e médias empresas. Se explorarmos essa maior integração entre nossas empresas, estaremos trabalhando pela maior agregação de valor na economia nacional, o que tende a reduzir os custos de transação devido aos ganhos logísticos, contribui por uma maior receita de impostos e, por fim, gerar mais emprego e renda na economia. O caso Fiat é o maior exemplo mineiro que temos deste tipo de integração empresarial. Precisamos repeti-lo na mineração, siderurgia, indústria de alimentos e vários outros setores.
 
Ao governo compete criar condições para que as empresas nacionais sejam efetivamente competitivas, o que hoje é impossível diante do chamado custo Brasil. Um exemplo é a carga tributária, que impacta de forma diferente o preço final dos bens manufaturados nos diversos países: 4% (Coreia), 7,3% (Inglaterra), 8,4% (Noruega), 8,7% na China e 37,1%, no Brasil - além da defasagem cambial, que penaliza os exportadores brasileiros. Na verdade, propiciar competitividade às empresas nacionais e garantir-lhes preferência nas compras governamentais e das grandes empresas-âncora, como ocorre em todos os países, é assegurar-lhes isonomia em relação aos seus concorrentes internacionais diante da impiedosa concorrência desse começo de século.
 
*Olavo Machado Jr - Presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Sistema Fiemg)
 

 
 
 
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